quarta-feira, 26 de março de 2008

Jardim de Inverno

Trazes velhas memórias,
aqui,
à porta do meu Jardim,
e pequenas lembranças do vento do Norte,
debaixo do braço.

Colhes as minhas rosas molhadas pelo orvalho de prata,
que se enraizaram
quando o Inverno lhes roubou o calor e lhes criou o azul.
Cortas as pernas com que pisam,
nos bosques solitários,
a fria e pura neve.
Secas os meus Corajosos Lírios e as minhas Belas Magnólias,
que sobreviveram ás tempestades assassinas vindas do Sul.

Não as mates! Não as mates!

Poupa a seiva da terra que criam
e que te fez nascer,
e fazer parte deste mundo escuro e pesaroso.
Mesmo que não tenhas pedido para nascer,
estás aqui à porta do meu Jardim,
com todas as cores do pó que te envolve a pele que vestes.

Foram elas que te deram:
a Paisagem que admiras,
o prazer da tua mulher,
os pecados de sangue.

Vai!
Vai, assassino longínquo!
Trazes a destruição sepultada
nas palavras obscenas que ousas proferir.
Não respires,
e entretanto,
leva essa tua honra nojenta,
para a terra que te há-de devorar,
e possuir-te ate à exaustão corporal.

Morre!
Que todas as pragas egípcias te consumam as entranhas,
que te esventrem as memórias e lembranças podres
que trazes debaixo do braço.
Que Vulcano,
Senhor do Ferro e Fogo,
te derreta a boca e a língua
com que espalhas as blasfémias da serpente divina
e a Deusa que segues irá morrer
com o veneno dos meus Acónitos.
E se os teus dedos tocarem uma só vez mais,
no meu corpo verde,
comerás os vermes da Belladona, Scadoxus e Poinsétia.

Volta para o teu buraco de cimento,
onde cospes o chão da família natural,
donde tudo veio.

FOGE! CORRE!

Não olhes para trás,
e não irás encontrar de novo este jardim,
este meu Jardim de Inverno.

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