sexta-feira, 30 de maio de 2008

sentidos

os espelhos de sangue distorcem a tua voz nas águas sombrias, donde nasci.
quando aconteceu, fiquei mudo por não querer ouvir o que o mundo tinha para dizer e por isso não posso apagar nem deixar morrer o som da tua boca.

deixei de falar-ouvir

tenho saudades de laçarmos as mãos nas tuas calças.
sofro na ânsia de sentir a glande subir-me pelo corpo ausente e percorrer estradas infinitas entre caminhos de terra-prazer-água-dor.
o mel lava as veias da acidez do sangue espelhado, fugindo das tempestades corporais em dias de vomito, procurando vestígios de fome nos alvéolos sem fundo.

deixei de sentir

sonho com palavras de seda em noites que se esculpem de azul e que sussurram em latim.
sonho com vivos enterrados em cemitérios e mortos que gastam o dinheiro em vestidos de lace preta e cartas lambidas com a saliva da consciência.

deixei de sonhar

a cegueira aclarou-me a visão.
arrancaram-me os olhos e agora, tenho duas pedras negras de silicone.
quem me dera que a lua morresse para que eu pudesse olhar a escuridão com olhos de cego, pois a lua foi a única que me fez ver.

deixei de ver

meninas saltam de penhascos contra abismos de ondas fortes onde os rochedos se rasgam como folhas de papel.
suicidam o corpo, estilhaçam a alma.

deixei de morrer


entretanto perdi todos os sentidos até me encontrar de novo
Cinco portas escarpadas na minha garganta respiram, labaredas quentes. Do enxofre ergue-se a lava da sereia que força a droga dos mares e das sinfonias poluídas a consumirem-se em sal. Faz milhares de filhos com o vento, deles nascem os abismos transparentes, espuma nos meus cabelos em destruição. as suas mãos procuram o sexo da lua por debaixo das laranjas amnésicas. O ar frio cai nos pés e o esperma vai-se dissolvendo na boca que ferve. as mãos rasgam-se nos espinhos do sol, enquanto os mortos gelam nas fogueiras inquisitoriais.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Hoje, acordei e olhei para o tecto. Era um tecto húmido e escorregadio, como nas manhãs de Agosto escuro que nos enchem de orvalho branco e cristais em bruto. Na sua camada espessa de tinta, havia maquilhagens e três sonhos empacotados numa caixa de vidro. As artérias da parede rebentavam em humidade. A caixa de vidro era brilhante e bonita, tinha um aspecto saudável. As minhas mãos tocaram ao de leve no vidro e este estalou em nove laranjas comprimidas nos três sonhos. Um sonho era uma menina, outro um gato azul e o outro um céu negro de relâmpagos. (as laranjas nunca cheguei a perceber o que lá estavam a fazer) A menina saltava de sonho em sonho, ronronando e folheando a sua passagem com aromas de alecrim e rosas brancas. Roubava um trovão e encaixava-o, na perfeição, numa das laranjas. Ia colando as laranjas umas as outras com resina de céu e beijava o gato com nuvens de vento. Sentava-se no seu sonho e ali ficava parada. Permaneceu imóvel durante nove horas, ate que fechou os olhos e adormeceu. os sonhos reuniram-se numa pequena esfera de tinta-luz e fecharam-se na caixa de vidro cor-de-laranja. Levantei-me da cama. Andei nove passos e morri.

terça-feira, 20 de maio de 2008

o meu quarto está escuro.
eu deixo-me ficar.
as minhas mãos abrem-se em feridas duras na pele do medo.
um homem entra no meu quarto, viola-me.
eu deixo-me ficar.
ele fode-me abruptamente, sai sem se despedir, nem mesmo uma palavra.
deixando-me nu e triste.
eu deixo-me ficar, porque nada posso fazer e nada há para mudar.
as feridas murcham, estão tão podres como o meu sexo.
o homem volta, agarra-me e abana-me violentamente.
grita num língua que eu não conheço e volta a enterrar o sexo no meu corpo de cristal.
desta vez, doeu o que tinha para doer.
o meu sexo, esse sangra pela masturbação nervosa.
enquanto o corpo,todo ele é sangue e chaga aberta;

as mãos

os olhos

a boca

as janelas


ele volta.
traz uma mulher consigo.
não sei qual é a cor da boca dela, o quarto está escuro.
senta-se nas minhas lágrimas pretas, observa o sexo que o homem faz comigo.
lambo os olhos com as pálpebras, mantendo-os fechados.

não quero sentir , não quero chorar.
afinal, não havia mulher nem homem.
eu deixo-me ficar.

(tranquei a porta)

o homem não voltou mais.

sábado, 17 de maio de 2008

Como caiem os mortos?

sexta-feira, 9 de maio de 2008




Como se o mundo

fluísse numa mão

e noutra

se ouvisse os rumores

no silêncio doutros mundos.




domingo, 4 de maio de 2008




Não vás , Alice.


Eu tenho de ir. Tu sabes que sim.


Voltas?


Talvez. E tu, voltas?


Talvez.

sábado, 3 de maio de 2008

O chão voltou a abrir e Alice já não suporta o peso dos cabelos salgados.
Perdeu-se no oceano morno, onde vagueiam os seus mortos.
As laranjas aquáticas desceram-lhe da boca e Alice voltou-se para o sol.
Bebeu as algas e os corais de veludo e suprimiu o coração em duas gotas de sangue quente.

A primeira era eu.

A segunda eram as mãos de vergonha enroladas ao pescoço,
subtileza das águas verdes e reflexos de espelhos rachados no peito branco de Alice.

Dois Corvos-Peixes cantam a sinfonia dos mares arenosos.
Alice deixa-se envolver pelo sal, nos lábios de mel.
Duas Najas rastejam pelas pernas ate á corola das Capelo e sugam o veneno umas das outras.
Sereias-Putas subiram do céu avermelhado e dançaram até selarem o pó das Carpas Azuis nos olhos transparentes, oleados de brisas marinhas.

Levantaram Alice, num gesto que podia ser de prazer.
Erguem-na até á Nudez.
Desprendem-na do sonho em ferida viva, ainda apetecível,
e deixam-na pousada nas copas de linho.
Alice é água, é fruto ardente que saboreia a frescura aliciante do vinho e que destrói o corpo com lâminas-memória.

Usa a máscara do pai que nunca viu.
Usa-a para se sentir Alice e não Isa Bel.
Isa Bel é uma das Sereias-Putas que vive na AlmaCega.

Alice é fraca e já não ouve o Cântico Espumoso.
Salta da Copa Cristalina e cai no meu mundo em pleno sfumatto.

Cai nas minhas mãos, bem assentes nos pentes e maquilhagens que uso para não me olhar.
Não ver noutro alguém aquilo que sou.
Há maquilhagens de todos as formas:
umas Fortes, outras Loucas.

(Quem é que queres enganar? Todas elas escondem o mesmo)

Alice.
Adormece em plena vidro glaciar, pronto a ceder no corpo mais quente.

Vamos dormir, viver aqui cansa . .

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Alice?
Sim.
Dá-me a mão.

As mãos laçam-se num movimento doce, calmo.
Só a respiração se ouve, abranda-acelera.

Conta-me. O que aconteceu?
Morri.
Morreste? Como morreste?
Não sei, apenas, morri.

A Morte submergiu das bocas e estatelou-se no chão.
Cega, muito morta.

Não tenhas medo.
Não. Ficas comigo?

Para sempre?
Não.
Então?
até esta dor fugir de mim.

A Dor juntou-se á Morte e ambas devoraram as larvas da loucura enquanto se tocavam mutuamente.

(Alice afaga-lhe a cabeça)

Fica comigo, sim?
Sempre, Alice.

Sempre.

A MorteDor estendeu-se no chão em pequenas gotas de orvalho sujo, e cobertos de poeira o vento varreu-os.