Há-de haver um dia
em que,
quando perdermos a memória,
iremos lembrar
de como fomos felizes.
Só quero que saibas que mesmo depois da terra, os nossos momentos estão presos, fixos e isentos no meu sangue.

Um chão de corpos inundava o pequeno parque.
A pele era a única roupa que traziam.
Os olhares discretos miravam a nudez envolvente e fingiam não querer ver.
Havia o cheiro de gente e das folhas secas que caíam a pouco e pouco na relva.
Ao longe surgiam pequenas vozes surdas que não se calavam com os protestos habituais contra saúde publica.
Mulheres e homens juntos, nus e deitados, ainda faziam muita impressão ás velhotas que passavam encurvadas e meias carcomidas pelo caruncho tradicional.
Aqueles homens e aquelas mulheres partilhavam a mesma dor, a mesma respiração, a mesma vontade, o mesmo saber.
Os tons de sépia espalhavam-se no ar como pó que assentava nos tornozelos de cada ser.
Os ninhos nas árvores enchiam-se de pássaros e finalmente começou a sinfonia que quebrou o silêncio gélido.
A vergonha da nudez foi-se devorando aos poucos e em largos momentos já ninguém tinha medo de se mostrar perante os outros.
As cores tardias rebentaram com as nuvens cristalinas, dando lugar a um céu nocturno brilhante e misterioso.
Alguns levantaram-se, ao som do entardecer e observaram o esplendor da raça humana, a máquina perfeita, infimamente construída.
Alguns choraram…
Outros adormeceram pelo caminho…
Só a perfeição permaneceu…
A areia trespassava-me os dedos.
A água brilhava, noctívaga.
A brisa deambulava docemente entre os cabelos louros, executando graciosas coreografias de bailados invisíveis.
Fedia a medo e a pavor.
Ouvia-se, no mar trepido e longínquo,
Os gritos afogados na doce melancolia.
Entoando cânticos de socorro.
A noite era linda como sempre
Os anjos infernais caminhavam sobre o vislumbre aquático,
com mantos pesarosamente escuros.
São flores mortas e murchas no paraíso.
Eram silenciosos e apenas o terrível ofegar se manifestava.
Iam caindo, como tordos alvejados.
Um homem caminha as largas ruas.
Meio atrapalhado, meio trôpego.
Esconde-se naquilo que possui, nas pequenas, justas e quebradas roupas que emprega de uma forma majestosa e confiante.
Cem mil olhos projectam-se na sua direcção, ele, despreocupado, segue o seu caminho como se o mundo viesse e chamasse por ele.
Não é ninguém, mas toda a humanidade morava nele.
Descia, lentamente, a rua onde vivia.
Três jovens impregnados de (aquilo a que eu gosto de chamar, “ O Terrível) preconceito, atiravam-lhe inocentes pedras da calçada.
Este olhava-os com desdém, protegendo-se dos ataques aéreos não planeados.
De vez em quando, alguns diziam-lhe “ Cigano de merda, volta p’ás barracas! ” enquanto levava com lixo que lhe atiravam das altas janelas, daquelas de que ninguém se protege.
Tais palavras faziam com que no seu interior crescesse um único sentimento – pena.
Até podia ser ódio, mas não, era definitivamente pena de todas aquelas pobres almas que deambulavam, cheias de ouro, pelas ruas de uma cidade, que metia nojo.
Toda a sua família tinha ido por terra.
Estava só.
Não era de ninguém, era apenas do mundo.
Empenhava umas calças de ganga empoeiradas e manchadas pelo odioso tempo.
Uma blusa branca, escondida por um casaco velho e preto.
A barba cerrada e o rosto enrugado eram as principais características que o definiam como Alberto.
Sentia-se morto e cansado e desejoso por chegar a casa (onde quer que fosse essa casa).
Sentia-se perdido, como se o mundo onde vagueasse, não fosse o seu.
Dizem que há tanta gente boa no mundo, mas de facto, só aparecessem de vez em quando, assim algures na vida.
De repente, a rua tornasse mais alta e o vagabundo cai.
Escorregou e deslizou até ao fim do passeio onde circulava.
Todos se riam.
A mulher do talho soltava umas guinchadelas inaudívelmente estridentes e o bibliotecário tapava a boca com a mão, só para não mostrar o seu riso de galinha velha.
Até o gerente do mais barato café soltava umas tantas gargalhadas.
O nosso amigo queixava-se, as suas costas já não eram o que costumavam ser no seu tempo de juventude e doíam-lhe como punhais que atravessam a carne vermelha e viva.
Agarrou-as com as mãos dolorosas e soltou um discreto gemido.
Uma senhora fina e apressada correu atabalhoadamente na sua direcção.
Por fim alcançou-o.
Agachou-se com dificuldade, esboçou um sorriso e estendeu-lhe a mão branca e lisa.
O homem barbudo olhou-a com uma certa admiração, ao som da estrondosa sinfonia que enchia a rua.
Os seus olhos encheram-se de lágrimas e de alegria.
Deu-lhe a mão e a senhora puxou-o para cima.
Levantou-se e articulou vagarosamente, como se o tempo pudesse parar uns segundos e poder admirar a beleza da solidariedade.
“ Obrigado”
A senhora riu-se.
“ Ora essa, tenho a certeza que faria o mesmo se tivesse no meu lugar!”
“ Pois sim, faria”
Aquelas mãos caridosas demoram, mas sempre chegam.