quarta-feira, 30 de abril de 2008




Há-de haver um dia

em que,

quando perdermos a memória,

iremos lembrar

de como fomos felizes.







sábado, 26 de abril de 2008

Alice

Alice senta-se no banco roto do jardim.
Flutua com o seu vestido de lace preta e meias velhas, escancaradas por uma dor já antiga.
Nas órbitas brancas e translúcidas caiem moscas, mas não há dor porque essa já nem se reclama.
Alice pestaneja as brisas que escorrem na espinha.
Levanta-se, encara-se a si mesma como se ela própria lhe pertencesse,
mas ela não sabe que nada lhe pertence, a sua existência resume-se ás podres, míseras laranjas que apanha do chão.
Ás vezes bebe as vespas doentias da manhã, mas logo desmaia em tons de amarelo.
Alice deixa de ser pessoa quando fala, por isso, adoptou o generoso método de cozer a boca com as agulhas cinzentas.
Prefere não falar, não desmaia, mas morre mais depressa, e mesmo vivendo numa cidade feita de negrume e verde fumo toda a morte canina realça o cheiro a sexo.
Não é parecida com ninguém, mas teima em ser esperança azul; eu bem lhe digo que ela está destinada a ser uma puta de rua, é lá que pertence mas ela diz-me sempre que não acredita no destino.
Ela luta, mas a piedade é mais fraca e Alice vence sempre, mesmo não querendo.
O que ela não fazia para poder trocar as feridas que nascem nos braços finos por duas ou três rosas.
Já não há vespas, quanto mais rosas.
Não pode haver fluidez, Alice apenas vive para servir de buraco húmido e quente para os homens que seduz quase brutalmente com a beleza.
Vive para se alimentar de fluidos orgânicos lançados por cabos electricamente acordados do transe diurno.
Alice é noite, é voz que fecunda nos lábios e que acaba no prazer.
Ela não conhece ninguém e as palavras cegam-na porque o rock & roll rebenta-lhe os olhos chorosos.
Alice, o seu nome é Alice, mas isso ela não sabe.
Preferia ser Isa Bel, ser costureira e poder cortar as linhas que lhe prendem a voz frágil.
Mas não é, e por isso Alice é o seu nome mesmo que não venha de lado nenhum ou para que lado algum vá, aliás, ela sabe onde é o seu lugar.





terça-feira, 22 de abril de 2008


Um chão de corpos inundava o pequeno parque.
A pele era a única roupa que traziam.
Os olhares discretos miravam a nudez envolvente e fingiam não querer ver.
Havia o cheiro de gente e das folhas secas que caíam a pouco e pouco na relva.
Ao longe surgiam pequenas vozes surdas que não se calavam com os protestos habituais contra saúde publica.
Mulheres e homens juntos, nus e deitados, ainda faziam muita impressão ás velhotas que passavam encurvadas e meias carcomidas pelo caruncho tradicional.
Aqueles homens e aquelas mulheres partilhavam a mesma dor, a mesma respiração, a mesma vontade, o mesmo saber.
Os tons de sépia espalhavam-se no ar como pó que assentava nos tornozelos de cada ser.
Os ninhos nas árvores enchiam-se de pássaros e finalmente começou a sinfonia que quebrou o silêncio gélido.
A vergonha da nudez foi-se devorando aos poucos e em largos momentos já ninguém tinha medo de se mostrar perante os outros.
As cores tardias rebentaram com as nuvens cristalinas, dando lugar a um céu nocturno brilhante e misterioso.
Alguns levantaram-se, ao som do entardecer e observaram o esplendor da raça humana, a máquina perfeita, infimamente construída.
Alguns choraram…
Outros adormeceram pelo caminho…
Só a perfeição permaneceu…

domingo, 20 de abril de 2008

Doce Melancolia

A areia trespassava-me os dedos.
A água brilhava, noctívaga.
A brisa deambulava docemente entre os cabelos louros, executando graciosas coreografias de bailados invisíveis.
Fedia a medo e a pavor.
Ouvia-se, no mar trepido e longínquo,
Os gritos afogados na doce melancolia.
Entoando cânticos de socorro.

A noite era linda como sempre
Os anjos infernais caminhavam sobre o vislumbre aquático,
com mantos pesarosamente escuros.
São flores mortas e murchas no paraíso.
Eram silenciosos e apenas o terrível ofegar se manifestava.
Iam caindo, como tordos alvejados.

Os tordos são criaturas afáveis, eu não!

E caí juntamente com os tordos para tornar o meu segredo afável.

terça-feira, 15 de abril de 2008

I


Gostava de te dizer que sim.
Gostava de saber que estás sempre lá,

mesmo que não estejas

, nalgum lugar recôndito esperando por mim,
e que olhes por mim quando digo que tenho medo de ti.
Não quero que te afastes, não quero os teus horizontes .
quero te aqui, na minha frente, como se do nada viéssemos ou fôssemos.

Já me encontraste.
Onde estás tu, então?

Gostava de te dizer:
" Volta, a solidão mata-me todos os dias, a tua presença completa os espaços vazios. Volta "

Eu não sei falar a tua língua, não compreendo o que dizes.
O que é que vês em mim, nem sequer vimos do mesmo lugar.

As palavras já se enrolam na minha boca, ja não sei o que dizer, elas não me saem do corpo.
Já não saem de qualquer lugar, estão presas algures no tempo dos mortos que ninguém vê ou ouve,
É melhor assim ...
Um dia voltaremos a ser,

talvez

,o que éramos,
mas por agora somos terra,
e terra seremos,

por enquanto.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Alberto

Um homem caminha as largas ruas.
Meio atrapalhado, meio trôpego.
Esconde-se naquilo que possui, nas pequenas, justas e quebradas roupas que emprega de uma forma majestosa e confiante.
Cem mil olhos projectam-se na sua direcção, ele, despreocupado, segue o seu caminho como se o mundo viesse e chamasse por ele.

Não é ninguém, mas toda a humanidade morava nele.

Descia, lentamente, a rua onde vivia.
Três jovens impregnados de (aquilo a que eu gosto de chamar, “ O Terrível) preconceito, atiravam-lhe inocentes pedras da calçada.
Este olhava-os com desdém, protegendo-se dos ataques aéreos não planeados.
De vez em quando, alguns diziam-lhe “ Cigano de merda, volta p’ás barracas! ” enquanto levava com lixo que lhe atiravam das altas janelas, daquelas de que ninguém se protege.
Tais palavras faziam com que no seu interior crescesse um único sentimento – pena.
Até podia ser ódio, mas não, era definitivamente pena de todas aquelas pobres almas que deambulavam, cheias de ouro, pelas ruas de uma cidade, que metia nojo.
Toda a sua família tinha ido por terra.
Estava só.

Não era de ninguém, era apenas do mundo.

Empenhava umas calças de ganga empoeiradas e manchadas pelo odioso tempo.
Uma blusa branca, escondida por um casaco velho e preto.
A barba cerrada e o rosto enrugado eram as principais características que o definiam como Alberto.
Sentia-se morto e cansado e desejoso por chegar a casa (onde quer que fosse essa casa).
Sentia-se perdido, como se o mundo onde vagueasse, não fosse o seu.
Dizem que há tanta gente boa no mundo, mas de facto, só aparecessem de vez em quando, assim algures na vida.
De repente, a rua tornasse mais alta e o vagabundo cai.
Escorregou e deslizou até ao fim do passeio onde circulava.
Todos se riam.
A mulher do talho soltava umas guinchadelas inaudívelmente estridentes e o bibliotecário tapava a boca com a mão, só para não mostrar o seu riso de galinha velha.
Até o gerente do mais barato café soltava umas tantas gargalhadas.
O nosso amigo queixava-se, as suas costas já não eram o que costumavam ser no seu tempo de juventude e doíam-lhe como punhais que atravessam a carne vermelha e viva.
Agarrou-as com as mãos dolorosas e soltou um discreto gemido.
Uma senhora fina e apressada correu atabalhoadamente na sua direcção.
Por fim alcançou-o.
Agachou-se com dificuldade, esboçou um sorriso e estendeu-lhe a mão branca e lisa.
O homem barbudo olhou-a com uma certa admiração, ao som da estrondosa sinfonia que enchia a rua.
Os seus olhos encheram-se de lágrimas e de alegria.
Deu-lhe a mão e a senhora puxou-o para cima.
Levantou-se e articulou vagarosamente, como se o tempo pudesse parar uns segundos e poder admirar a beleza da solidariedade.
“ Obrigado”
A senhora riu-se.
“ Ora essa, tenho a certeza que faria o mesmo se tivesse no meu lugar!”
“ Pois sim, faria”

Aquelas mãos caridosas demoram, mas sempre chegam.