terça-feira, 22 de abril de 2008


Um chão de corpos inundava o pequeno parque.
A pele era a única roupa que traziam.
Os olhares discretos miravam a nudez envolvente e fingiam não querer ver.
Havia o cheiro de gente e das folhas secas que caíam a pouco e pouco na relva.
Ao longe surgiam pequenas vozes surdas que não se calavam com os protestos habituais contra saúde publica.
Mulheres e homens juntos, nus e deitados, ainda faziam muita impressão ás velhotas que passavam encurvadas e meias carcomidas pelo caruncho tradicional.
Aqueles homens e aquelas mulheres partilhavam a mesma dor, a mesma respiração, a mesma vontade, o mesmo saber.
Os tons de sépia espalhavam-se no ar como pó que assentava nos tornozelos de cada ser.
Os ninhos nas árvores enchiam-se de pássaros e finalmente começou a sinfonia que quebrou o silêncio gélido.
A vergonha da nudez foi-se devorando aos poucos e em largos momentos já ninguém tinha medo de se mostrar perante os outros.
As cores tardias rebentaram com as nuvens cristalinas, dando lugar a um céu nocturno brilhante e misterioso.
Alguns levantaram-se, ao som do entardecer e observaram o esplendor da raça humana, a máquina perfeita, infimamente construída.
Alguns choraram…
Outros adormeceram pelo caminho…
Só a perfeição permaneceu…

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