Alice senta-se no banco roto do jardim.
Flutua com o seu vestido de lace preta e meias velhas, escancaradas por uma dor já antiga.
Nas órbitas brancas e translúcidas caiem moscas, mas não há dor porque essa já nem se reclama.
Alice pestaneja as brisas que escorrem na espinha.
Levanta-se, encara-se a si mesma como se ela própria lhe pertencesse,
mas ela não sabe que nada lhe pertence, a sua existência resume-se ás podres, míseras laranjas que apanha do chão.
Ás vezes bebe as vespas doentias da manhã, mas logo desmaia em tons de amarelo.
Alice deixa de ser pessoa quando fala, por isso, adoptou o generoso método de cozer a boca com as agulhas cinzentas.
Prefere não falar, não desmaia, mas morre mais depressa, e mesmo vivendo numa cidade feita de negrume e verde fumo toda a morte canina realça o cheiro a sexo.
Não é parecida com ninguém, mas teima em ser esperança azul; eu bem lhe digo que ela está destinada a ser uma puta de rua, é lá que pertence mas ela diz-me sempre que não acredita no destino.
Ela luta, mas a piedade é mais fraca e Alice vence sempre, mesmo não querendo.
O que ela não fazia para poder trocar as feridas que nascem nos braços finos por duas ou três rosas.
Já não há vespas, quanto mais rosas.
Não pode haver fluidez, Alice apenas vive para servir de buraco húmido e quente para os homens que seduz quase brutalmente com a beleza.
Vive para se alimentar de fluidos orgânicos lançados por cabos electricamente acordados do transe diurno.
Alice é noite, é voz que fecunda nos lábios e que acaba no prazer.
Ela não conhece ninguém e as palavras cegam-na porque o rock & roll rebenta-lhe os olhos chorosos.
Alice, o seu nome é Alice, mas isso ela não sabe.
Preferia ser Isa Bel, ser costureira e poder cortar as linhas que lhe prendem a voz frágil.
Mas não é, e por isso Alice é o seu nome mesmo que não venha de lado nenhum ou para que lado algum vá, aliás, ela sabe onde é o seu lugar.
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Um comentário:
Estou com pouca paciência para fazer comentários bonitos , deixo-te por isso a promessa de um regresso e um:
- Boa noite.
Até.
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