sexta-feira, 30 de maio de 2008

sentidos

os espelhos de sangue distorcem a tua voz nas águas sombrias, donde nasci.
quando aconteceu, fiquei mudo por não querer ouvir o que o mundo tinha para dizer e por isso não posso apagar nem deixar morrer o som da tua boca.

deixei de falar-ouvir

tenho saudades de laçarmos as mãos nas tuas calças.
sofro na ânsia de sentir a glande subir-me pelo corpo ausente e percorrer estradas infinitas entre caminhos de terra-prazer-água-dor.
o mel lava as veias da acidez do sangue espelhado, fugindo das tempestades corporais em dias de vomito, procurando vestígios de fome nos alvéolos sem fundo.

deixei de sentir

sonho com palavras de seda em noites que se esculpem de azul e que sussurram em latim.
sonho com vivos enterrados em cemitérios e mortos que gastam o dinheiro em vestidos de lace preta e cartas lambidas com a saliva da consciência.

deixei de sonhar

a cegueira aclarou-me a visão.
arrancaram-me os olhos e agora, tenho duas pedras negras de silicone.
quem me dera que a lua morresse para que eu pudesse olhar a escuridão com olhos de cego, pois a lua foi a única que me fez ver.

deixei de ver

meninas saltam de penhascos contra abismos de ondas fortes onde os rochedos se rasgam como folhas de papel.
suicidam o corpo, estilhaçam a alma.

deixei de morrer


entretanto perdi todos os sentidos até me encontrar de novo

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