Hoje, acordei e olhei para o tecto. Era um tecto húmido e escorregadio, como nas manhãs de Agosto escuro que nos enchem de orvalho branco e cristais em bruto. Na sua camada espessa de tinta, havia maquilhagens e três sonhos empacotados numa caixa de vidro. As artérias da parede rebentavam em humidade. A caixa de vidro era brilhante e bonita, tinha um aspecto saudável. As minhas mãos tocaram ao de leve no vidro e este estalou em nove laranjas comprimidas nos três sonhos. Um sonho era uma menina, outro um gato azul e o outro um céu negro de relâmpagos. (as laranjas nunca cheguei a perceber o que lá estavam a fazer) A menina saltava de sonho em sonho, ronronando e folheando a sua passagem com aromas de alecrim e rosas brancas. Roubava um trovão e encaixava-o, na perfeição, numa das laranjas. Ia colando as laranjas umas as outras com resina de céu e beijava o gato com nuvens de vento. Sentava-se no seu sonho e ali ficava parada. Permaneceu imóvel durante nove horas, ate que fechou os olhos e adormeceu. os sonhos reuniram-se numa pequena esfera de tinta-luz e fecharam-se na caixa de vidro cor-de-laranja. Levantei-me da cama. Andei nove passos e morri.
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