sábado, 3 de maio de 2008

O chão voltou a abrir e Alice já não suporta o peso dos cabelos salgados.
Perdeu-se no oceano morno, onde vagueiam os seus mortos.
As laranjas aquáticas desceram-lhe da boca e Alice voltou-se para o sol.
Bebeu as algas e os corais de veludo e suprimiu o coração em duas gotas de sangue quente.

A primeira era eu.

A segunda eram as mãos de vergonha enroladas ao pescoço,
subtileza das águas verdes e reflexos de espelhos rachados no peito branco de Alice.

Dois Corvos-Peixes cantam a sinfonia dos mares arenosos.
Alice deixa-se envolver pelo sal, nos lábios de mel.
Duas Najas rastejam pelas pernas ate á corola das Capelo e sugam o veneno umas das outras.
Sereias-Putas subiram do céu avermelhado e dançaram até selarem o pó das Carpas Azuis nos olhos transparentes, oleados de brisas marinhas.

Levantaram Alice, num gesto que podia ser de prazer.
Erguem-na até á Nudez.
Desprendem-na do sonho em ferida viva, ainda apetecível,
e deixam-na pousada nas copas de linho.
Alice é água, é fruto ardente que saboreia a frescura aliciante do vinho e que destrói o corpo com lâminas-memória.

Usa a máscara do pai que nunca viu.
Usa-a para se sentir Alice e não Isa Bel.
Isa Bel é uma das Sereias-Putas que vive na AlmaCega.

Alice é fraca e já não ouve o Cântico Espumoso.
Salta da Copa Cristalina e cai no meu mundo em pleno sfumatto.

Cai nas minhas mãos, bem assentes nos pentes e maquilhagens que uso para não me olhar.
Não ver noutro alguém aquilo que sou.
Há maquilhagens de todos as formas:
umas Fortes, outras Loucas.

(Quem é que queres enganar? Todas elas escondem o mesmo)

Alice.
Adormece em plena vidro glaciar, pronto a ceder no corpo mais quente.

Vamos dormir, viver aqui cansa . .

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